quando era pequeno costumava jogar a uma coisa de que não me lembro o nome e, na verdade, nem sei mesmo se havia nome para aquilo!...num papel em branco eu fazia um risco, dava a caneta ao meu colega e ele fazia outro risco a partir daquele que eu tinha feito, devolvia-me a caneta e eu fazia outro....e assim sucessivamente. quando não conseguíamos "ir a lado nenhum" com os riscos que fazíamos virávamos a folha (na expectativa de que ninguém visse os nossos desaires) e tentávamos de novo até obtermos figuras identificáveis. assim, da direcção que as nossas mãos davam àquela caneta dependia o destino da nossa folha de papel...se resultasse nalguma coisa que pudéssemos mostrar guardávamo-la para a posteridade senão, deitávamos a folha com todos os rabiscos indecifráveis para o lixo.
felizmente, neste jogo, haviam muitas folhas disponíveis...
felizmente, neste jogo, haviam muitas folhas disponíveis...
pois este jogo bem podia ser uma analogia para a forma como "desenhamos" o nosso mundo.
uma geração passa a caneta à geração seguinte para que esta a conduza a um novo traço.
não ponho em causa a necessidade de evolução porque não podemos, nem devemos, aprisionar o poder criativo da mente humana. porém, esta mesma evolução não pode ser feita à custa de do enfraquecimento da nossa folha de papel porque um dia ela poderá não suportar mais a pressão dos riscos da caneta.
tantos têm sido os riscos mal orientados que quase esgotámos o espaço disponível de ambos os lados da folha...é certo que alguns deles resultaram em imagens bonitas e decifráveis mas infelizmente abundam na nossa folha imensos rabiscos que não compreendemos ou aceitamos e somos por isso forçados a usar a borracha de apagar tinta que, com o seu poder abrasivo, arranca as fibras do papel onde a tinta está depositada....e o problema do enfraquecimento da nossa folha reside neste ponto. quantas vezes terá de passar a borracha num mesmo sitio até a folha rasgar? não sabemos ao certo mas sabemos que a folha se ressente cada vez que abusamos dela e por isso mesmo é que temos de ponderar muito bem a direcção de cada risco.
mesmo que ela não se ressentisse das agressões a que a sujeitamos deveríamos ter a preocupação constante de traçar riscos harmoniosos.
era importante que de uma vez por todas os participantes deste jogo compreendessem que a caneta não nos foi emprestada para desferirmos golpes sobre a folha....até porque só temos uma!

Sem comentários:
Enviar um comentário